Vagando em Paris

2006-02-02

Pingos no i em moo-voo-ka

Eu passo muito tempo lendo vendo ou escutando sobre tecnologia, o que em qualquer definicao me poe claramente no conceito de nerd. Entao no comeco do ano eu obviamente assisti alguns highlights (por que estava com uma conexao ruim, se nao veria tudo) dos dois eventos mais importantes do ano, o Consumers electronics show e a Macworld Expo. Em determinado momento do discurso do Bill Gates ele comentou sobre assistir televisao enquanto chateia com seus amigos, o que me fez lembrar do velho muvuca. Como ando mexendo muito com video -descobri nele uma maneira excelente de expressao pois podemos falar tanto em pouco tempo e usando poucas palavras- resolvi brincar de editar aquele trecho com uns bonequinhos do muvuca e mandar para as pessoas que participaram do msr, que seriam as unicas a entender a piada. Mas pelos comentarios ditos, semi-ditos e nao ditos, acho que ficou um tom ruim no ar, como se eu tivesse feito uma provocacao de mal gosto ou algo assim. Talvez tenha sido paranoi minha mas pelo dito ou nao dito, resolvi deixar algumas coisas claras na vida.

Primeiro, hoje em dia eu concordo plenamente com o resultado do concurso. Foi um concurso que todo mundo se envolveu muito emocionalmente e foi isso que deu a magica ao momento, e sabiamos que 80% de nos sairiamos frustrados. No momento decidi que nao iria julgar o que pensava ate ter um afastamento o suficiente. O muvuca foi um conceito acertado, com umas conclusoes interessantes e uma execucao divertida, mas nada pratica. A apresentacao foi extremamente longa para o que deveria ser simplesmente um software simples, nos tentando mostrar aos outros tudo o que aprendemos sobre relacoes humanas na internet. Mas o produto nao comunica. Tentamos falar de relacoes, e como as pessoas conversam no chat quando o que vende um produto como esse é o efeito do cool: "uau, que divertido é fazer isso". Ele nao tem grande impacto no meu portfolio, devido a essa dificuldade em explica-lo. nao por que haja uma complexidade intrinsica, mas por erro nosso: um projeto conceitual nao é um produto, mas um argumento. E o muvuca nao se explica, nao diz pra que existe.

O XPerience, o projeto vencedor tinha esse fator Uau. Nos julgavamos ele pela sua forma: é um palm+celular+camera, um gadget faz tudo sem atrativos maiores. Mas o que a gente nao via na epoca é justamente que o que esta em jogo nao é o produto, mas o servico que ele oferece. Nos nao estavamos criando objetos, estavamos dizendo o que os objetos deviam ter. E o servico do xperience é uma serie de templates/wizards para voce criar videopodcasts "on the spot", algo que por varias vezes eu desejei ter na minha vivencia em paris. Tudo que o xperience oferece esta disponivel para voce se voce tem uma camera+um computador+internet+uma suite de edicao de video simples (como o iMovie) e uma forma rapida de publicar tudo na web (diremos, iWeb)+tempo pra ficar transferindo tudo de um lugar ao outro. A ideia de voce poder tratar suas imagens, editar o seu video, misturando fotos e narracao daquilo que voce acaba de viver e poder publicar na hora é extremamente interessante e atual. O fato de podermos descreve-lo com palavras que nem existiam na epoca, como podcasting, mobloggers ou citizen-journalism é so prova de sua atualidade. O fato de voce usar uma camera digital, um palm ou um celular para isso é completamente irrelevante: nao pense no produto, pense no servico que ele oferece.

Os outros projetos, todos tem sementes interessantes, e se encaixam em algum ponto da timeline tecnologica. O YouMe era uma serie de servicos online para "social-networking" uma palavra que se tornaria buzzword no ano seguinte, e por isso mesmo talvez nao fosse futuristico o bastante. O witwi era parecido, mas incluindo localizacao em tempo real, misture social networking com google local e voce tem uma serie de possibilidades interessantes sendo exploradas por um monte de gente hoje em dia. O google nao muito tempo depois comprou dodgeball.com um servico mais modesto mas com objetivos tao visionarios quanto a das meninas. Uma pena, tivessem sido elas eu teria tres amigas trabalhando em mountain view. E o iztmo, bem eles, eu nao sei. Para mim disparado o projeto mais disruptivo, tao disruptivo que ninguem sabia direito par aque servia. Um super aparelho musical, capaz de todo tipo de som e feito para colaboracao musical em tempo real com um monte de gente. O tipo de projeto que as pessoas passam, abrem os olhos, cutucam com uma varinha dizem uau e vao embora: sei la deixa o bicho quieto. Voces ja ouviram o ninjam.com? eles tem um podcast onde voce pode ouvir sessoes de jams colaborativos na rede...

O muvuca é um projeto pelo qual tenho muito carinho, e que se reduzido ao extremo sombras na frente do filme, pode ser uma solucao divertida para chat no cinema, mas outras solucoes, como misturar com conteudo de webcams, pode ser muito interessante tambem. Volta e meia me vejo sempre voltando a meus antigos projetos, fazendo releituras neles, atualizando. Afinal, se nao cuidamos de nossos bebes, quem mais vai?

enfim. E esse meu clipe de video o que voce esta dizendo? Cada palavra, cada frase do discurso de um CEO é em geral produto de uma serie de pesquisas, uma turma enorme de designers que filtram ideias de diversas fontes e que chegam a acordos. Sao ideias que um monte de designer de produto teve, um monte de estudantes confirmou, e muita gente boa trabalhou na executabilidade junto a fabricantes. Ao ouvir o bill eu senti como se de alguma forma, nos tivessemos participado, nem que fosse um minimo, dessa coletividade enorme. Como um votante feliz de ver seu partido ganhar, eu senti como se de alguma forma, fosse parte da equipe gigante dos bastidores.

So isso.